Mês passado a prefeitura do Rio de Janeiro tombou a bossa nova como patrimônio cultural da cidade. Um pouco antes, o samba já havia recebido tratamento semelhante, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. E há um projeto tramitando no Senado para transformar o dia 25 de janeiro, aniversário de Tom Jobim, no Dia Nacional da Bossa Nova.
Minha pergunta: precisa? Como se ninguém soubesse da importância do samba e da bossa para a formação da moderna cultura urbana nacional (não apenas a carioca). E, no caso da bossa nova, para a abertura do mercado externo à nossa música, fato consumado até os dias de hoje.
Ok, vamos lá, antes que a Academia Brasileira de Letras se levante cheia de ciúmes diante de tantas homenagens: Dia Nacional da Bossa Nova é como homenagem em nome de rua: pode envaidecer, mas não tem efeito prático direto; é populismo, mesmo. A bossa nova está sendo reconhecida Patrimônio Cultural do Rio para aproveitar a comemoração dos seus 50 anos (data de nascimento 1958, ano de lançamento dos discos “Canção do Amor Demais” de Elizete Cardoso e “Chega de Saudade” de João Gilberto). Homenagens, homenagens. Vários de seus protagonistas ainda estão vivos, então é só uma simpatia sem maiores efeitos práticos, também.
Já no caso do samba, registrado Patrimônio Imaterial a partir de suas variações partido alto, samba de terreiro e samba-enredo, significa maior facilidade no levantamento de verbas para pesquisadores e produtores culturais em projetos para o Ministério da Cultura (levantamento de verba, bom nome para esporte nacional…). É que essa é uma categoria que permite isenções fiscais em cultura. Para quem vive de pesquisa séria na área de música brasileira, ótimo, embora esses titulos não garantam nada na hora do ‘vamos ver’. A burocracia tá aí, gorda e sebenta como sempre. E o dinheiro gosta do cheiro do ralo.
O que me chama a atenção são 2 coisas: primeiro, samba-enredo Patrimônio Imaterial?! Se fosse nos anos 50, mas hoje em dia… Samba-enredo pra mim é a salsicha enlatada da música, boiando naqueles conservantes, que delicia… Isso cheira a facilidades para o turismo e o carnaval cariocas. Daqui a pouco as Escolas vão inscrever seus desfiles na Lei Rouanet (fora o que ganham das TVs). Que beleza, seu Rei Momo! O Brasil é mesmo o país do funcionalismo público, modorrento e paquiderme, com todo mundo querendo beliscar dinheiro alheio e morrer na rede sem ter contribuído com nada.
A segunda coisa que percebo, bastante óbvia até, é que tanto a bossa nova quanto o samba já estão cristalizados como gênero, com suas convenções e formas consagradas. São, de certa forma, a nossa música clássica (assim como quase todas as correntes musicais do século passado, do rock ao reggae, do blues ao soul). Todos esses estilos já atingiram sua maturidade, e por mais que apareçam novos e fantásticos artistas dentro deles (e aparecem!), estarão sempre criando a partir de tradições fechadas (no sentido de resolvidas e bem desenvolvidas).
Titulos como esses do samba e da bossa não mudam nada na hora da criação artística; nem transformam o samba em peça de museu nem garantem à bossa facilidades no mercado nacional. Mas são sinais de várias de nossas particularidades e idiossincrasias.


0 Respostas para “Samba e Bossa Nova Viram Patrimônio”