Muito já foi dito, a onda toda já passou, mas acho que é uma hora melhor pra começar a pensar sobre o assunto “Radiohead”.
Primeiro, o que não se comentou muito: que discão!!! Tenho pra mim (na verdade pensei isso pela primeira vez hoje dirigindo) que os grandes discos da música pop sempre prestam tributo a tudo que veio antes deles. Se está faltando alguma coisa, então não é um disco tão marcante. Foi assim com o Nevermind (que tem rock 70, punk, pós-punk, melodias sessentistas e hardcore), foi assim com o London Calling (precisa falar?), foi assim com tudo que é disco relevante.
Bom, hoje a música não se fia mais tanto a esses “discos de virada”, mas estivéssemos nos anos 90 talvez In Rainbows pudesse ter um impacto tão grande quanto Ok Computer. Não faz sentido falar em “segundo Ok Computer”, mas o fato é que os caras atingiram um distante equilíbrio entre o experimentalismo hoje pop do Kid A com a ambiência do Ok Computer, sem deixar de lado a dramaticidade dos dois primeiros discos (que eu particularmente não gosto meishmo).
In Rainbow, como tudo que é bom feito hoje, é construído em camadas. E o material dessas camadas é a história do Radiohead misturada à história do rock. Por exemplo, é possível inserir Faust Arp na linhagem do bardo Nick Drake, à base de violões e orquestração. 15 step tem bateria de eletrônica experimental e dedilhados bem Radiohead. Bodysnatcher é o punk sujo do disco com batida reta e um clima entre o The Doors e o Queens of The Stone Age. Videotape é pura doencinha sufocante ao piano que lembra essas cantoras tipo Feist. O disco não tem uma música ruim e é tecido de forma bastante uniforme, um patchwork muito esperto.
Como os discos do Wilco, In Rainbows é pra ouvir, reouvir e não se cansar de descobrir coisas.
É uma tese, mas não tenho muitas dúvidas disso: o Radiohead é o novo U2. O Thom Yorke é puro Bono anos 00: porta-voz de um engajamento 2.0 (ok, foi ruim essa…) que diz respeito muito mais à forma como a sociedade se comporta no âmbito da web do que propriamente à suposta vida real formada pelos dramas do terceiro mundo. As guitarras dedilhas e recheadas de reverb, os loops de bateria e o flerte com a pós-modernidade (agora absolutamente mainstream) assinam embaixo: o Radiohead está fazendo, no mundo pop, o papel que o U2 fez nos anos 90. Não faz falta que o Radiohead não tenha hits radiofônicos como o U2 teve e tem, porque agora os hits radiofônicos praticamente não interessam mais. É uma tese que pode render muito mais, mas eu deixo ao gosto do freguês, não vou me estender nisso.
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Muito se falou dos downloads gratuitos, então não tem porque eu bater ainda mais nessa tecla já gasta. A questão que resta é uma frase que vi em algum lugar e achei ótima: num mundo onde uma banda com a qualidade do Radiohead oferece sua música de graça, por que pagar por tanta porcaria?
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Outra coisa, e essa eu consegui pensar sozinho: houve gente sublinhando o fato de que só 38% das pessoas pagaram pelo download, numa média de seis dólares por álbum (abaixo do preço médio de downloads do itunes e do preço de um CD. Algo como “arrá, viu só, quase ninguém quer pagar, se deu mal”.
Mas aí tem alguns detalhes.
1. O dinheiro dos downloadas foi todo para a banda, que recebeu mais do que os direitos autorais da venda de CDs reais.
2. É impossível saber a porcentagem de pessoas que não pagam por discos lançados apenas para serem vendidos, seja como CDs e downloads. Tem tanta gente baixando que deve ser uma porcentagem bem superior a 62%, que é a fatia dos ouvintes que não pagaram pelo dowload de In Rainbows.
Houve ainda executivos argumentando que a banda não conseguiria fazer isso sem ter uma base de fãs que foi construída com o apoio de uma grande gravadora. Mas existem experiências comerciais bem concretas em andamento de que o contrário também é verdade. De novo eu invoco a Fresno como exemplo, que montou sua base de fãs por si própria através de redes sociais e só então quando seu caminho estava bem pavimentado é que uma grande gravadora se “arriscou” a investir na banda. Super risco né? Uma banda que vinha fazendo show pra 3 mil pessoas por conta própria…
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No caso dos Walverdes, realmente não sabemos o que fazer com o próximo disco. Estamos em dúvida sobre a necessidade de lançar CDs, muito embora eles ainda sejam uma fonte de renda nas turnês. O que acho que vamos precisar fazer é dar uma atenção maior à arte e à caixinha, tornando o suporte algo mais do que mero suporte. Nada de novo, inúmeros boxes de artistas, discos de vinil e pen drives vêm cumprindo esse papel.
É o que fez o Radiohead: a primeira versão em CD de In Rainbows, tipo luxo, custava 40 libras e muita gente comprou mesmo com o acesso irrestrito ao download. Como chamariz, não só um puta projeto gráfico como alguns quitutes gratuitos vinculados ao box.
Aqui tem mais detalhes e um análise bem econômica da história.

De qualquer forma, o furor em torno da distribuição gratuita de In Rainbows só interessa a quem não interessa mais: ao mainstream, ao grande mercado e a nós, supostos estudiosos. Porque para quem realmente interessa, o público, o futuro mercado de música, isso não está mais em questão, já foi absolutamente resolvido. Quem quer pega, quem não quer não pega. Quando quiser muda de idéia e era isso, pronto. Paga por algumas coisas, não paga por outras. Quem define o que é pago ou não e quando? Todo mundo junto, numa espécie de assembléia informal e orgânica que se regula diariamente. Não acontece só com downloads de música, mas com tudo mais: bolsas Prada, filmes e softwares.
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Pra onde vai tudo isso? Não sei. Tem fã pagando disco de ídolo e esperando o troco. Já tem banda brasileira sugerindo que cada um pague o quanto quer pelo ingresso. Tem de tudo pra todo mundo.
O mundo está cada vez mais parecido com um buffet a quilo. E é uma arte viver em qualquer um dos lados do balcão.




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