Alameda Mamoré, 535 Alphaville - Barueri - SP (11) 4166.5701 / wbrenner@updaters.com.br

Brinde

358501018_551ae4dc1c_m.jpg

Escrevi esse release no ano passado. Recomendo fortemente essa banda. Vai lá no Myspace dos caras enquanto lê o textão…

“Sabe aquela coragem? Aquela de fazer rock na Bahia, um estado cuja boa parte de sua economia é baseada em um tipo de som diametralmente oposto? Pois então. Por incrível que pareça, não é essa a coragem que move a Brinde em seu segundo disco. Enfrentar esse desafio já virou clichê e não é mais problema para a Brinde e para boa parte da cena musical brasileira, que está cada vez mais livre de amarras geográficas e estéticas. “Aquela coragem”, eu deduzo a partir da audição do segundo disco da banda de Cruz das Almas, é a difícil arte de soar contemporânea sem beber direto na fonte oitentista que irriga a maior parte do som praticado por seus parceiros de geração. Diferente da maioria, a Brinde abriu mão dos anos 80 e foi direto aos anos 60 buscar melodias ensolaradas e aos anos 90 capturar um pouco de sujeira e auto-ironia. Estamos falando de elementos que compõem a espinha dorsal do som de bandas como The Who, Supergrass, The Jam, Superchunk, Husker Du (e, logo, o Sugar). O resultado é uma respeitável coleção de 11 canções tão desleixadas quanto cristalinas. As letras do guitarrista e vocalista Henrique Neves seguem essa lógica: há confissão, há ingenuidade, há amor. Mas também há uma saudável pitada de sarcasmo, uma sutil porém sempre presente decisão de não se levar a sério. Isso retira o que poderia pesar demais e colocar a banda dentro do mesmo balaio cultural que hoje abriga blogueiros e roqueiros emo. Henrique tem a pecha de cuspir declarações de amor tipo “Descobrindo estar a seus pés / Desmarquei visitas a bordéis” e também de enfileirar versos aparentemente desconexos como “Devaneios teatrais / De quem disfarça e se retrai / Enquadrado com rigor / Desnecessário e sem pudor / Aos seus anseios anormais / Desvios comportamentais”. Do que ele está falando? Não sei. Na melhor tradição de Kurt Cobain, são mensagens cifradas que podem tanto esconder a dor e a angústia como o riso abafado de quem sabe que no fundo o ser humano nunca vai conseguir entender tudo mesmo.
Quem auxilia Henrique a colocar esses versos num contexto menos emotivo e mais supersônico é o baixista Leno Blumetti e o baterista Voltz, que assumem a árdua tarefa de tecer diferentes dinâmicas dentro de cada canção: há idas e vindas na melodia e no andamento, sempre na medida certa, nunca exagerando, cuidando para enfatizar um bom riff e não se perder na repetição de uma virada bem sacada (um dos grandes predicados do já citado Supergrass). Difícil equilíbrio este, mas ele é mantido com uma surpreendente maturidade, ainda mais se levarmos em conta que este é recém o segundo álbum da banda –mais solto e sujo do que o primeiro, diga-se de passagem. Então, no fim das contas, resta-nos ter a mesma coragem do trio baiano e se entregar ao disco sem muito drama, com um espírito aberto e leve. Em pouco mais de meia hora, a Brinde mais pergunta do que responde, mais intui do que confessa e mais agita do que acalma. E não se preocupe demais com essa indecisão. Porque eles não parecem não se preocupar muito.”

Leave a Reply



Close
Close