Projeto que une música de texturas eletrônicas com canções resgatadas de manifestações tradicionais brasileiras, o Axial tocará neste sábado 27 no palco Cool do TIM Festival, no Rio de Janeiro. Formado por Sandra Ximenez, Felipe Julian e Leo Muniz, lançaram seu 2º CD “Senóide” este ano, o qual pode ser baixado gratuitamente em seu site. Falei com o Felipe sobre os shows, o grupo e o licenciamento via Creative Commons adotado por eles. Ouça abaixo um pouco do som deles, antes dessa mini-entrevista:
Peregum
Oxumaré
OUVIDORIA: O CD de vocês está sendo licenciado via Creative Commons, como está sendo esse processo?
AXIAL: Nem todas as músicas serão licenciadas em Creative Commons, apenas aquelas 100% de nossa autoria ou, no caso de composições de outros, que já tenham caído em dominio público. O CC trabalha com vários tipos de licença. No nosso caso a licença diz que nossas músicas podem ser compartilhadas, distribuidas e reproduzidas respeitando algumas condições: 1) que não seja feito uso comercial de nosso trabalho, 2) que seja dado crédito ao autor e 3) que qualquer trabalho que utilize nossa música seja obrigatoriamente re-licenciado em Creative Commons - por exemplo, um filme com uma música nossa deverá ser licenciado em CC, também (em um efeito bola de neve, que mantém o fluxo do material livre o tempo todo). Mas se um diretor quiser usar nossa música sem licenciar seu filme em CC, aí o caminho dele será o “tradicional”, que é entrar em contato direto conosco e pedir autorização. Existem outros tipos de licença: por exemplo o recombo, que permite o sampleamento e uso de músicas por outros músicos.
Existem também licenças que liberam sua obra para o domínio público após 14 anos, não em 70 como é no direito autoral tradicional (off_line). Se você der um pulo no site da Creative Commons vai encontrar todos esses tipos de licenças. É tudo bastante simples, e a idéia do CC é ser um sistema inteligível por não-advogados (apesar de, no inicio, termos contactado um para tirar algumas dúvidas). Se alguém compartilhar a minha música pela internet, a legislação atual diz que essa pessoa é criminosa, então o CC é um jeito de tenho de descriminalizar o meu ouvinte.
OUVIDORIA: E como vocês descobriram o Creative Commons?
AXIAL: Eu tinha lançado um CD chamado Urbanogramas, que era uma trilha sonora feita para outros artistas criarem a partir dela. Era uma inversão do processo: a primeira coisa que existia era a trilha sonora, e de fato apareceram peças de teatro, de dança e filmes que usaram músicas do Urbanogramas. Depois disso surgiu o Axial, e então ouvimos falar do CC, que percebemos ser um jeito de formalizar essa proposta.
OUVIDORIA: E como é o processo de criação de vocês?
AXIAL: Basicamente, a Sandra - que trabalha há 10 anos com o grupo A Barca - chega com o material “cancional”, as canções propriamente ditas, letra e melodia. Eu mexo melhor com os arranjos e às vezes com alguma reformatação da canção inicial, e o Leo também contribui como instrumentista.
OUVIDORIA Vocês estão no palco TIM Cool, qual é a proposta lá?
AXIAL: Eu não conheço totalmente os outros artistas; sei que tem o CirKus, projeto do marido da Neneh Cherry, com participação dela. Os outros 2 shows são de música eletrônica não para dançar, são projetos conceituais. Então a idéia do espaço é apresentar esses sons diferentes.
OUVIDORIA: Vocês tem tido convites para tocar lá fora?
AXIAL: Ano passado fizemos shows na Alemanha, e esse ano tocamos lá de novo e na República Tcheca. É possivel que voltemos ano que vem.
OUVIDORIA: Você acha que os europeus ouvem o som de vocês de um jeito diferente dos brasileiros?
AXIAL: Talvez não, o nosso som já é bastante ‘gringo’ mesmo aqui no Brasil (apesar de boa parte de nossa inspiração vir de material brasileiro, como os cantos de candomblé). Se um europeu ouvir a Sandra cantando uma melodia em iorubá vai achar que aquilo é de qualquer lugar menos do Brasil, quando na verdade é nosso. Mas tem uma coisa que tínhamos clara desde o inicio no Axial que era o uso do idioma: a Sandra cantando em creole ou iorubá, não apenas em português, contribui para um certo distanciamento do ouvinte. Ao ouvir a música sem entender a letra, você se apega a todo o resto da informação, menos à poesia, e isso também é interessante, pois faz o ouvinte daqui ficar no mesmo nivel de um ouvinte estrangeiro.

